E aconteceram frutos, flores, sombras nocturnas de primavera, uma cama feita caruma seca de pinhal e um tecto de quarto aberto ao sinal de um dossel de horizonte. E fiquei assim, na felicidade, de ir além de quem me penso para poder sulcar o tempo que há-de ser.
Apeteceu a beleza de encontrar novos sinais de sorrir, de olhar o mar, de olhar o céu, de navegar no rio azul e voltar a ser quem sonho, ser mais quem sou, mais além mais diante, mais por dentro, ir ao fundo sem parar.
Que fui ao fundo dos medos, por dentro do mundo, e descobri olhar de negro, húmido no poder ser da noite, um corpo de terra a desbravar, uma flor de ternura dando relva à pedra e no fim do desejo nova flor por cumprir, que a pele de navegar me deu mais mãos mais força para suster o breve peso do tempo.
Foram lábios feitos navios, sulcando o corpo terra, sabores de mar olhos de árvore, cabelos de caruma, e o leve colo, secreto, de um corpo de árvore que mais apetece no abraçar.
Como se todas as mulheres de amor se condensassem na bruma de um só corpo de mulher, nessa viagem de chegar e apetecer ir mais secreto ao fundo do próprio tempo.
Sem que a noite se detenha em brasa nesse acontecer sem porquê nesse intervalo de mar que me deu mar ainda mais. Nessa viagem onde meu corpo barco pernoitou em verso, nesse tempo de esperança de quem ousa ainda saudar os dias que hão-de vir e as noites por cumprir.
E apetece assim que o vento leve para bem longe do que finjo de mim, que num cantinho qualquer de procurar-me, no breve aconchego de um colo quente a proa de quem sou ao amarar pudesse trazer os silêncios que hei-de voltar a ser.
Foi aqui que fomos nós, um dia, quando o tempo nos dava espaço de saudade e a água, amarga de sal, nos animava. Quando corpos salgados, pelas areias, passeavam, e um longo pôr-do-sol amainava a fúria dos dias. Foi aqui que fomos nós, em vida. Foi aqui, na sombra breve dos pinheiros, na pedra negra do cais que nos deu mar. Foi aqui que sonhei ser para sempre.
Foi aqui que vi nascer o dia no alto da falésia, no alto da minha vida, quando disse não aos dias que sofria e, contigo, viajei comigo, dobrando a névoa do tempo, a raiva amarga da renúncia.
Foi aqui que, por mim dentro, me esqueci de quem sofreu a espera de te encontrar, desses dias todos de mãos por dar e amor por cumprir. Foi aqui que me esqueci de um tempo que já não há e que, olhando o sol de frente, deixei de ser memória dos dias que foram ira. Foi aqui que não ouvi o silvo do farol em aviso de naufrágio. Foi aqui que, dentro de mim, vivi quem na verdade sou.
E tudo quem fui antecedeu quem sou, como no estampido de um sonho adolescente, nesse encontro de menino que me deu sinal de navegar nos mares em do meu silêncio, quando tudo quem sonho desceu assim dentro de mim. Foi aqui e foi assim.
Não guardarei segredo e a todos poderei dizer que amanhã será o sonho que sonhei, feito viagem. Foi aqui e foi assim e como tal será para sempre, num tempo de areia e urze. Porque foi assim que apeteceu que fosse. Foi assim, na margem de quem sou, na ponte que me levou ao sonho, onde, além de mim, venci quem fui.
Foi aqui que, contigo, vivi pela primeira vez quem sempre fomos. E aqui seremos, para sempre, a plenitude, se vencer a força de sonharmos, se o mar nos der a ira de chegarmos dentro de nós, além de nós.<>span>
Neste puro prazer de sentir a caneta a deslizar no papel, enquanto trinco uma maçã na solidão da noite, vou sentindo o marulhar dos pinheiros e o brilho das estrelas.
E sulcando livre em meu destino, mesmo que seja contra quem sou, me continuo nesta procura de estar vivo, de sentir que, assim, de mãos dadas, contigo ao lado, posso ser mais, nesta promessa de ser para sempre, com a palavra dada no compromisso livre de quem apenas ama.
Mesmo aqui e agora, na força da terra úbere, na sanguínea paisagem que nos dá a profundidade cósmica da criação. Sobretudo quando podemos sentir a ternura, sem as inibições dos que não sabem amar inteiros: no corpo, na alma e nos pequenos pormenores de um quotidiano sentido e plenamente vivido, em sonhos que apetecem repetir. Sabe tão bem poder olhar-te, olhos nos olhos, e braços abraçados em plena luz do dia, peregrinando todos os meandros da cartografia do teu corpo. Sabe tão bem amar-te e sentir-me livre, feliz e vivo, diante do sol. Sabe tão bem viver feliz contigo.
Que viver é estarmos vivos, beijos nos beijos, amantemente companheiros, diante de todos os outros. Almas errantes de nómadas que gostam de parar e percorrer, em gestos de ternura, este poema por fazer de nosso amor feliz.